19.9.05


Tem situações que por mais que sejam totalmente inéditas, me fazem ter sensações exatamente iguais a sensações que tinha quando era pequena. Quando acontece alguma coisa muito ruim, até a cor das coisas fica mais cinza, meu corpo fica pequeno e pesado, todas as saídas levam a ‘lugar nenhum’, não vão me ajudar a escapar. Talvez porque minha vontade seja de escapar de mim mesma e isso, pro meu desespero, não dá. A minha companhia fica insuportável. Seja por vergonha do que fiz, seja por uma mágoa, seja por medo, a vontade que dá é a de não ser eu, pelo menos não hoje. Vontade de poder não estar aqui até a poeira baixar, pra não ter que sentir a dor, ou ter que pensar em alguma coisa, ou mesmo encarar alguém. Dá vontade de que outra pessoa tome conta da situação e resolva enquanto eu vou ali. Queria chegar e ver tudo resolvido, mal entendidos esclarecidos, machucados curados, vexames esquecidos, mágoas perdoadas, tudo no seu devido lugar.
E é nessas horas, em que me sinto pequena e indefesa, que me obrigo a encarar. E então dá um estalo e me faço forte, respiro e sinto o meu corpo preenchido com algo mais. E depois que tomo uma atitude, por mais que eu nem saiba o que esteja fazendo, tudo aquilo que me amendrotava começa a ficar pequeno e, com mais um pouquinho, passa.
E é aí que me sinto grande. Mesmo que daqui a pouco algo me faça encolher de novo, AGORA eu estou grande.

16.9.05

Todos a cada dia vão se tornando diferentes. Os interesses muitas vezes vão se modificando. Há um ano atrás eu não me interessava por coisas que hoje andam preenchendo meu tempo livre. Talvez hoje acaso eu abandone minha profissão eu não mais escolha aquela dita aos quatro cantos da terra meses atrás. E talvez a que eu escolha amanhã não seja a que eu vejo como predileta hoje. Algum perigo nisso? Creio que não! Somos multifários e isso nos conduz a abandono de idéias, a reciclagem de outras, a fortalecimento de mais algumas. Mas é preciso um certo cuidado porque muitas vezes essa inevitável metamorfose pode nos afastar de alguns bons sentimentos. Falo isso porque recentemente eu e algumas outras pessoas perdemos um amigo em razão do “way of live” que abraçou. Se colocou distante a certo ponto, que não mais é possível fazer fluir aquela amizade simples e despretensiosa. Enfim, são os ônus das novas idéias, do crescimento, mas que eu sinceramente preferia ficar deles exonerada. Para mim uma nova idéia não tem hora para chegar, tampouco para partir. Já um grande amigo, quando bate à minha porta, nada e ninguém mais podem levar.

15.9.05

Sem condições de oferecer, só ando para "trocos".

Grilo procura
no escuro
o mais puro diamante perdido
O grilo
com as suas frágeis britadeiras de vidro
perfura
as implacáveis solidões noturnas
E se o que tanto buscas só existe
em tua límpida loucura
- que importa?-
isso
exatamente isso
é o teu diamante mais puro
( Mário Quintana )
Parece que algo me impede de desejar. Talvez seja a necessidade de me descobrir. Me encontro, me desencontro. Um dia sei quem sou, noutro nada mais posso declarar. Incansável caminho. Avanço, mas não vejo o fim. Talvez não haja fim. Quiça o caminho seja a descoberta. E o desejo seja a descoberta encontrada.
Daquela que busca na sua mais "límpida loucura".

14.9.05

Pedi para que cada dia que passasse, levasse um pedacinho de você.
Só não imaginei que fossem começar pelas roupas.
Já não sei se vai dar certo...
Será que vou deixar que levem o resto quando acabarem as peças?

13.9.05

Vamos lá. Eis que se inicia um grande espetáculo. Alguns a protagonizarem personagens loucos, outros a se fazerem passar por bons, outros por maus. E alguns se passando silenciosamente por muito equilibrados, a tecerem olhar crítico sobre toda a massa de “desvairados” que os circunda. E estes tais equilibrados não se arvoram a se declararem equilibrados porque o sentimento de equilíbrio que lhes persegue não lhes permite tamanha vaidade. Mas um olhar mais acurado sobre a forma com que se relacionam com o mundo permite alçar o título que se lhe dão. Fica notório que se acham equilibrados. Fica notório que depositam no outro, diferente deles, um olhar de compaixão. Mas, e nós, os outros, os tais desequilibrados? Será que seremos rechaçados ou alguma alma verdadeiramente equilibrada encontrará em nós encanto? Não quero compreensão, olhar de consternação! Quero intensidade, quero que o equilíbrio, que se um dia vier, me traga mais desequilíbrio, para que nessa profusão de sentimentos eu me reinvente, saia melhor. E que se lixe a compaixão pelo desequilíbrio, o ar de superioridade. Perdoe-me a citação, mas impossível não fazê-la. “Amava esse curto-circuito. Provocava-o para que a perfeição pudesse atingir-se com um só jato de riso – louca brincadeira de um Deus trocista e permissivo.” (Inêz Pedrosa) E que a arrogância dos que nos olham de forma paternalista transforme-os em seres inaldíveis. E eis que surgirá a grande descoberta, a de que os mais equilibrados, que se julgam como tal, são egoístas e pretendem-se melhores. Que vaguem longe de mim, porque prefiro meus comparsas, os loucos, desequilibrados, que na sua humildade, exalam mais felicidade, mais paixão, mais encantamento.

Ele não gosta de poesia;
se encanta por músicas que não sei bem quais são.
Moço diferente,
e para além de interessante.
Toque sem igual,
menino que não me faz mal.
Sua fala tem corte,
quase nunca chega ao final,
deixa para que eu arremate,
sem saber se seria igual.

Fica esta poesia para quem não mais está. Resolvi partir sem ter a exata noção se devia fazê-lo. Deixei um menino brejeiro, de sorriso cativo, mal compreendido, que, na sua simplicidade confusa, encanta e amedronta. Preferi os rótulos. Coloquei-me a exigi-los. Não consegui e parti. Se prefiro o convencional? Talvez. Mas do que tenho certeza é que me ofereço, estou sempre disponível ao outro, porque não acredito em outra fórmula para a felicidade. E assim sigo...

12.9.05

Não estou.

Hoje você pode me encontrar, com o olhar perdido, nos lugares e horários de sempre. Mas se você olhar direito vai perceber que não estou ali.

Hoje eu não estou.

Abandonei meu corpo pra ver se em algum lugar consigo encontrar a resposta sobre você, ou, de repente, me perder de você. Já percorri vários lugares, já estive com diferentes pessoas e até agora nada. Já estive no passado, dei um pulo no futuro e nada. Nada me tira esta inquietação da cabeça, nada me tira você da cabeça.
Procuro uma resposta, mas acho que o problema está na pergunta. Não sei o que perguntar. Nem sei o que estou procurando. Não sei se quero a entrada ou a saída. Qual delas poderia doer menos? Ou qual dor valeria mais à pena?
Como vou saber? Quem vai saber? Ninguém.
Mesmo sabendo que é inútil passar as horas procurando a 'solução', não consigo fazer diferente. Não consigo voltar, ocupar este corpo e dar utilidade a ele.

Hoje estou inútil.

Às vezes surge uma decisão... mas logo volto atrás.
Depois uma idéia melhor, mas... não, melhor não.
E enquanto isso a única atitude que tenho, é a de não ter atitude nenhuma.

Assim vou consumindo meu dia, e então descubro que talvez esse seja o meu objetivo: passar o dia. Passar o dia para que venham outros dias, e para que cada um deles leve um pedacinho de você para o único lugar que talvez consiga me proteger de você: ontem.

Hoje eu quero amanhã.